sábado, 8 de agosto de 2015

Um minuto para pensarmos na nossa (des)humanidade

Drummond é uma das minha grandes referências na vida e eu, que não sou nenhuma estudiosa de poesia, sei que sinto isso pela identificação com tudo que ele nos diz sobre a barbaridade do mundo. E, quanto mais vivo, mais penso em seus poemas, porque viver é fundamentalmente um espetáculo bárbaro e cruel que transforma nosso título de "humanidade" quase numa piada.
Também nosso aprendizado para a vida, para sobreviver nela, acaba sendo uma grande ironia, porque o que o mundo de hoje nos ensina é destruir nossa humanidade a cada dia que passa. Ensinam as crianças a hostilizar o diferente, construir nosso sucesso às custas do sofrimento do outro e defender nossas posses, nosso status desse outro, que é sempre uma ameaça.
Essas crianças, que aprendem a segregar, agredir, defender-se viram os adultos "prontos para o mundo" e a cada fase de nossa vida adulta só reforçamos a separação do mundo entre os nossos e os outros, aprendemos que devemos ser bons com uns poucos escolhidos e para todo o resto do mundo reservamos uma face de defesa e hostilidade.
E o resultado mais triste e desolador é que, com isso, a humanidade morre a cada dia que passamos nessa falta dela, a cada dia que mais nos habituamos aos horrores da fome e da violência e aprendemos que, afinal, não nos diz respeito e, pior, que a culpa de tudo é das próprias pessoas que não foram capazes de terem sucesso na vida como nós.
E, a cada passo dessa nossa constituição, a humanidade de cada um de nós morre e grita desesperada e, sinceramente, é uma morte necessária. Não é possível preservar o humano em nós e conviver com o mundo de hoje, simplesmente é inviável seguir tranquilo se você estende seu amor e preocupação aos outros. É preciso que os outros não sejam nosso problema para podermos dormir em paz ou então o que resta é sofrer a cada novo terror que vivenciamos e chegar a quase sufocar em um mundo de tanta hostilidade e de uma falta de relações humanas inacreditável.
A verdade é que, com mais ou menos consciência do horror em que vivemos, todos precisamos de um refúgio. A sociedade nos dá a família, mas que fundamentalmente é outro show de horrores por impor laços de afetos a pessoas diferentes unidas apenas por uma árvore genealógica e, para isso, também nos ensina que só somos felizes aos pares (um determinado tipo de par, é claro).
O grande impasse nisso é que nos colocam a necessidade do casal com objetivos absolutamente equivocados e daí resultam as grandes confusões, pois mais uma vez impõem uma união inabalável para a continuação de nosso círculo quando o que realmente nos motiva é que não podemos viver nesse mundo impossível sem amor. É a necessidade da humanidade, que matam todo dia, que nos une, mas não unem apenas o casal, une a todos, é por essa necessidade urgente, que não entendemos bem, que vamos desesperados em busca do outro, porque de toda a confusão, só percebemos que não podemos estar sós.
E é verdade. Mas não é verdade que o motivo disso é sermos incompletos, o que realmente nos move é a impossibilidade de viver na hostilidade e na apreensão sem ter pessoas conosco que nos lembre, mesmo que confusamente, mesmo que apenas por uma empatia que nos cause um bem estar, que há mais do que vemos à nossa volta. Precisamos sentir e acreditar que podemos encontrar nas pessoas todo esse sentimento humano que crescemos abnegando.
Mas o triste, que me faz pensar nisso com tanto pesar, é que nós não só não percebemos a natureza fundamental dessa necessidade de estar junto como estendemos essa falta de humanidade às nossas próprias relações e não percebemos que se não lutarmos para fazermos o nosso refúgio repleto da humanidade que matamos, o que sobrará de nós?

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