sábado, 8 de agosto de 2015

Um minuto para pensarmos na nossa (des)humanidade

Drummond é uma das minha grandes referências na vida e eu, que não sou nenhuma estudiosa de poesia, sei que sinto isso pela identificação com tudo que ele nos diz sobre a barbaridade do mundo. E, quanto mais vivo, mais penso em seus poemas, porque viver é fundamentalmente um espetáculo bárbaro e cruel que transforma nosso título de "humanidade" quase numa piada.
Também nosso aprendizado para a vida, para sobreviver nela, acaba sendo uma grande ironia, porque o que o mundo de hoje nos ensina é destruir nossa humanidade a cada dia que passa. Ensinam as crianças a hostilizar o diferente, construir nosso sucesso às custas do sofrimento do outro e defender nossas posses, nosso status desse outro, que é sempre uma ameaça.
Essas crianças, que aprendem a segregar, agredir, defender-se viram os adultos "prontos para o mundo" e a cada fase de nossa vida adulta só reforçamos a separação do mundo entre os nossos e os outros, aprendemos que devemos ser bons com uns poucos escolhidos e para todo o resto do mundo reservamos uma face de defesa e hostilidade.
E o resultado mais triste e desolador é que, com isso, a humanidade morre a cada dia que passamos nessa falta dela, a cada dia que mais nos habituamos aos horrores da fome e da violência e aprendemos que, afinal, não nos diz respeito e, pior, que a culpa de tudo é das próprias pessoas que não foram capazes de terem sucesso na vida como nós.
E, a cada passo dessa nossa constituição, a humanidade de cada um de nós morre e grita desesperada e, sinceramente, é uma morte necessária. Não é possível preservar o humano em nós e conviver com o mundo de hoje, simplesmente é inviável seguir tranquilo se você estende seu amor e preocupação aos outros. É preciso que os outros não sejam nosso problema para podermos dormir em paz ou então o que resta é sofrer a cada novo terror que vivenciamos e chegar a quase sufocar em um mundo de tanta hostilidade e de uma falta de relações humanas inacreditável.
A verdade é que, com mais ou menos consciência do horror em que vivemos, todos precisamos de um refúgio. A sociedade nos dá a família, mas que fundamentalmente é outro show de horrores por impor laços de afetos a pessoas diferentes unidas apenas por uma árvore genealógica e, para isso, também nos ensina que só somos felizes aos pares (um determinado tipo de par, é claro).
O grande impasse nisso é que nos colocam a necessidade do casal com objetivos absolutamente equivocados e daí resultam as grandes confusões, pois mais uma vez impõem uma união inabalável para a continuação de nosso círculo quando o que realmente nos motiva é que não podemos viver nesse mundo impossível sem amor. É a necessidade da humanidade, que matam todo dia, que nos une, mas não unem apenas o casal, une a todos, é por essa necessidade urgente, que não entendemos bem, que vamos desesperados em busca do outro, porque de toda a confusão, só percebemos que não podemos estar sós.
E é verdade. Mas não é verdade que o motivo disso é sermos incompletos, o que realmente nos move é a impossibilidade de viver na hostilidade e na apreensão sem ter pessoas conosco que nos lembre, mesmo que confusamente, mesmo que apenas por uma empatia que nos cause um bem estar, que há mais do que vemos à nossa volta. Precisamos sentir e acreditar que podemos encontrar nas pessoas todo esse sentimento humano que crescemos abnegando.
Mas o triste, que me faz pensar nisso com tanto pesar, é que nós não só não percebemos a natureza fundamental dessa necessidade de estar junto como estendemos essa falta de humanidade às nossas próprias relações e não percebemos que se não lutarmos para fazermos o nosso refúgio repleto da humanidade que matamos, o que sobrará de nós?

segunda-feira, 31 de março de 2014

Para que escrevemos?

O difícil de se criar um espaço para nossas necessidades literárias é que parece haver uma estranha obrigação de se escrever sobre algo, como se precisássemos de uma desculpa para simplesmente pensar sobre nós mesmos. Preciso de uma desculpa objetiva para simplesmente falar o que eu posso nem saber, afinal quando é poesia que urge sair, não é planejado ou racional, é como respirar...
E eu mesma nem sei mais (se é que um dia soube) o que preciso dizer. Só sei que meu peito parece estufado, como se houvesse algo gigantesco, incompatível com seu pequeno tamanho... talvez hoje tenha acordado com o mundo dentro de mim, mas com quem compartilhar essa vastidão que nem eu mesma compreendo? E terão outras pessoas o mundo em seu peito? Porque de repente sinto como se todos vivessem em uma grande harmonia, uma ignorância doce enquanto estou aqui, com algo indescritível a me atormentar.
Sou privilegiada e demasiadamente inteligente por isso? Não, porque eu nem mesma sei o que é... sei que é uma inquietação e que ninguém mais poderia dizê-la, só eu posso, embora não saiba. Mas esse tudo é tão meu que ninguém pode entendê-lo ou expressá-lo por mim.
O que eu sinto, na verdade, é Drummond falando "meu coração cresce dez metros e explode", talvez essa dor absolutamente fictícia seja porque ele não consegue explodir e tampouco consegue mais crescer, porque ah, como ele é pequeno!
Temos tão pouco coração quando os mistérios da vida crescem para nós... não temos coração nem entendimento, porque nem conseguimos vazar esse coração pelas palavras, até porque talvez elas não existam. É possível falar sobre o que não assume um contorno? É possível falar quando, talvez, no fundo, sentimos o peito doendo de nossa humanidade crescendo?
E acho que no fundo se trata um pouco disso, da dor de crescer... faz parte termos noites de explosões inexplicáveis, como se nos avisassem que apesar do mundo cinza, uma legião de estrelas cadentes cheias de humanidade, poesia, literatura explode toda noite e tudo explode dentro de nós, irradia e não sabemos para onde ir ou o que fazer com o que temos, para onde ir quando descobrimos que o mundo é vastíssimo e "mais vasto é o meu coração", como já dizia Drummond? Dói, dói demais sentirmos que no fundo o mundo é maior, muito maior do que fazem dele e queremos olhá-lo, contar que existem uma infinidade de livros em cada pequena experiência e que, minha nossa, o que poderia valer mais do que isso?
Mas quando olhamos o mundo por um instante só conseguimos nos aproximar dos tantos escritores, muitos eternamente incompreendidos e parecemos compartilhar por alguns momentos dessa inquietação que virou tanta poesia e, sem o mesmo dom deles, só nos resta assim mesmo escrever, porque é preciso para viver, para respirar, mas se uma relação visceral com a escrita nos é dada, nós aceitamos humildemente e escrevemos porque a vida, as angústias e os desejos existem... se virará arte, testemunho ou bobagem, que o tempo diga.

sábado, 2 de novembro de 2013

Plenitude sem fulminação




"Eu acredito que a poesia tenha sido uma vocação, embora não tenha sido uma vocação desenvolvida conscientemente ou intencionalmente. Minha motivação foi esta: tentar resolver, através de versos, problemas existenciais internos. (...)" Carlos Drummond de Andrade


Todos nós, que temos um pezinho na literatura, elegemos nosso escritor preferido e invejamos sua habilidade com as palavras, seu dom para expressar tudo aquilo que nós sentimos, mas parecemos incapazes de exprimir em seu exato significado ou intensidade.
E vez ou outra ficamos pensando maravilhados como é incrível ter esse poder da palavra e que ele é para poucos definitivamente. E temos aquela invejinha literária de ter essa maestria com nossa língua, que mais nos domina do que o inverso e vivemos reféns do indizível, pois a vida humana parece imensamente mais complexa do que nossa capacidade de dizê-la
Eu sou dessas e Drummond é minha referência, minha bíblia, minha voz, assim como Clarice Lispector é meu referencial de cumplicidade desse fluxo de consciência ininterrupto e caótico; eles me expressam e me mostram o mundo e com eles aprendi a ver a vida muito mais que somente pela linguagem, mas pela linguagem literária. Talvez aí tenha mandado um abraço para ser alguém ajustado no mundo, porque quando entendemos a poesia que há nas coisas, torna-se impossível viver em um mundo tão materialista como o nosso.
Mas e quando a literatura começa a nos constituir de tal forma que não basta ler seu livro de cabeceira e sentir seus sentimentos mais íntimos expressos com aquele lirismo que só nossos poetas são capazes? Acho que é nesse momento que começamos a entender as palavras de Drummond... nesse momento, em que vejo minha relação com o mundo assumir um lirismo visceral, começo a entender que não é uma questão de intenção, mas uma impossibilidade de seguir existindo sem escrever.
O primeiro texto que escrevi foi fruto de uma ida ao cinema da qual voltei com a mente em festa, com milhões de relações se estabelecendo e aquilo era rico demais, precisava expressá-lo minimamente... por sua intensidade é claro, mas muito mais por uma necessidade de "esvaziamento"... não é possível viver com essa festa de ideias: quando elas nascem, elas precisam se desenvolver e se materializar ou nunca mais dormiremos novamente.
Mas o fantástico da vida é que nenhuma relação fica estanque... simplesmente por vivermos tudo se fermenta dentro de nós, nossas reflexões nos modificam e a experiência individual e a compartilhada com o outro modificam nossa relação com as pessoas e com a vida.
E se a relação com a escrita começa por uma necessidade de expressão, ela passa a ser absolutamente visceral. De repente, é preciso escrever para viver, e é importante percebermos que a questão não é a compreensão nem o entendimento, pois esse é um estágio anterior ainda, em que escrevemos para organizar nossos pensamentos e nos expressarmos, pois é isso que as pessoas que tem uma boa relação com o "escrever" fazem.
E escrever por uma necessidade vital não é tão racional como objetivar o entendimento, é antes uma necessidade de alma, espírito, existência... é preciso escrever porque senão não vivo. Meu corpo vive, mas minha alma está ausente, sufocando e ela só se realiza e se encontra quando escrevemos. O quê? Não sei, não importa nem é controlado por nós.
Escrevemos o que está no mais íntimo de nosso ser e nós só descobrimos o que estava lá quando vem à tona e isso é tudo que importa. E o ponto aqui é que esse movimento não quer dizer que vamos entender o que se passa conosco ou nosso próprio espírito, afinal, que forma tomará isso que vem? Um conto, uma crônica, uma reflexão que podemos nós mesmo não entendermos ou que pode não dizer nada a respeito do que está na origem do texto que surge, mas é impossível viver sem fazê-lo.
Por isso, hoje entendi nosso Drummond, pois há dias estava absolutamente irriquieta e há pouco tempo percebi que tudo se resumia à urgência de escrever... mas não sabia o quê, já havia tido muitos temas, mas o tempo deles passou, não fazem mais sentido agora, perderam-se no tempo e hoje, em um estalo, esse texto surgiu e só por isso devo respeitá-lo e deixá-lo fluir, pois se há algo que aprendemos com nossos mestres é que a literatura que urge dentro de nós deve sair sem maiores questionamentos ou tentativas de entendê-la, ela trilha seu próprio caminho em nós e através de nós, tudo que podemos fazer é mergulhar de olhos fechados e peito aberto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Mais de 50 mil pessoas na ruas de Campinas e perguntamos: José, pra onde?

Depois de alguns imprevistos, finalmente consegui escrever sobre a manifestação de ontem aqui em Campinas,não podia demorar mais, sinto que não conseguirei seguir com a vida sem organizar em algumas linhas esse turbilhão de pensamentos em que estou absorvida desde ontem e que só vem crescendo com todas as mensagens que tenho lido sobre o assunto.


Em primeiro lugar, queria deixar essa imagem da Francisco Glicério ontem e nos lembrar bem da emoção que foi chegar na concentração do ato e ver uma multidão que eu nunca havia sonhado em ver em uma manifestação; da emoção de olhar para todos os lados e ver pessoas a perder de vista; da emoção de descer a Anchieta, olhar para trás e ver aquela multidão; da emoção de pensar o que significa para Campinas um número desse de pessoas na rua.
E digo isso, pois vejo muitas pessoas decepcionadas, e que em meio a um certo desgosto não lembram dessa imagem e é essa visão que nunca devemos esquecer: vimos todos que se indgnam postando no facebook e fazendo twittaço indo às ruas, vimos que é possível, e dessa lição política não podemos nos esquecer.
E, vendo os problemas que aconteceram no ato e tem acontecido em outros lugares também, começo a pensar que a chave de tudo é essa indignação.
A proporção que as manifestações tomaram traz uma multidão de indignados, dos quais muitos vivenciam pela primeira vez essa ida à rua e, infelizmente, acham que inventaram a roda. Esse é um primeiro ponto que tem causado um confronto absurdo com pessoas filiadas a partidos políticos. Essas pessoas vão às ruas no que pensam ser um exercício de cidadania (como foi muito bem ensinado na escola) e levam consigo uma insatisfação que não sabem bem contra quem: estão sufocados pelo peso de sobreviver em uma sociedade que a cada dia retira mais os seus direitos, por uma vida na qual não tem garantia de estudo, não tem segurança de um atendimento quando a doença vir e para chegar ao trabalho as poucos tem que escolher entre o ir e vir e se alimentar com um mínimo de dignidade. E, como se não bastasse, no tempo de respiro, em que não está sendo sugado pelo trabalho, não consegue vivenciar a cidade e suas escassas alternativas de lazer se não tiver dinheiro. E ainda como cereja do bolo, temos um país cada vez menos para a população para ser preparado para a Copa.
O resultado disso é essa onda de manifestantes indo sem rumo, sem saber pelo quê e contra quem gritar. Nosso prefeito revogou o último aumento e com isso conseguiu tornar nossa passeata uma confusão de reivindicações, não havia mais pauta. Dou razão a quem me questionou sobre isso, de fato, naquele momento, não havia mais e todas aquelas milhares de pessoas foram lá se indignar por suas próprias pautas, todas e nenhuma ao mesmo tempo.
Esse era o caso de todas as pessoas presentes ontem? Não, é claro que não. Não tínhamos uma organização do ato em si, tínhamos os grupos organizados que formaram blocos pelo Ato... eu não consegui estar perto, mas sei que nesses focos tínhamos um movimento organizado levando bandeiras contra o aumento abusivo da Tarifa do Ônibus, porque essas pessoas são a origem de todo esse movimento: antes das mobilizações atingirem essa magnitude, eles já estavam lá, esse ano e nos anteriores. Os movimentos, coletivos e partidos de esquerda sempre estiveram lutando pelo Passe Livre.


Aqui voltamos novamente à questão da indignação: é perfeitamente explicável esse movimento anti-partidário que surgiu. A população está indignada e finalmente saiu do facebook e foi às ruas, não aguenta mais o descaso do Governo e a inversão de prioridade, sacrificando cada vez mais cada um deles. Vê tudo isso personalizado nos políticos e seus partidos, acha todos iguais, tem asco deles, não se sente representado, não consegue enxergar um diferente e quer distância de todos, são inimigos.
É esse o sentimento que chega nessas Manifestações: as pessoas que chegaram agora não veem todos esses movimentos que lutam há tanto tempo; pelo contrário, em suas bandeiras só enxergam tudo aquilo que desprezam, o resultado é a canalização da raiva para quem é aliado, na verdade, chegando a assumir proporções autoritárias para não dizer fascistas. Pois quem reivindica um movimento de todos os brasileiros, chegar a agredir um manifestante simplesmente por este segurar uma bandeira, é no mínimo destruir toda a imagem democrática que tentam dar ao movimento.
Agora, falando aqui de Campinas, esse movimento anti-partidário existe sim, mas nem de longe tem a proporção que a mídia tenta imprimir, assim como nem com muito esforço a proporção de "vandalismo" é a que é colocada . Eu cheguei a ver o absurdo de uma legenda de uma foto falar de um confronto com 400 vândalos e estou me perguntando até agora se eu e esse repórter estávamos no mesmo Ato. E, na minha opinião, o maior perigo é esse. São as apropriações e distorções feitas pela mídia e pela Direita que vem se somando ao Movimento, levantando suas bandeiras e contribuindo para acabar com a pauta do movimento e tomar os rumos dele para si.
Aqui acredito que se encontra o grande desafio de todas as organizações de esquerda que estão desde o início deste movimento: disputá-lo e organizá-lo. Em São Paulo, sei que tudo isso tem proporções gigantescas, mas aqui em Campinas também pudemos ver muitas bandeiras conservadoras no meio da manifestação em meio a uma grande população dispersa, quando não em um clima quase de Copa do Mundo. Aos que estão indignados com isso: era inevitável. Em uma manifestação com dezenas de milhares nas ruas, com um crescimento em pouquíssimo tempo e poucos focos de organização, seria estranho se não fosse assim. E por isso eu digo: agora, cabe canalizar essa indignação, crescer o trabalho político nas escolas, universidades, fábricas e conversar com essas pessoas que tiveram uma experiência de um ato como nunca antes nem os militantes mais antigos tinham visto; de uma polícia que avançou para cima de uma manifestação pacífica sem receio, usando de bomba, gás lacrimogênio e o que mais achasse necessário.
Aqueles que foram para uma grande festa ontem estão tranquilos em suas casas, há também aqueles felizes por ter exercido sua cidadania, mas há milhares de indignados pela cidade, com a dor da repressão no corpo, nos olhos, na memória e é com essa vivência política que temos que trabalhar e enfrentar essa onda conservadora que tenta reverter essa mobilização pra si.
Eu não sei os rumos que tudo isso tomará: em São Paulo, o MPL suspendeu as manifestações pelas proporções desastrosas de conservadorismo e violência que estavam tomando; em Campinas não sei se será o mesmo, mas pelo sim e pelo não a tarefa da disputa política está colocada e eu tenho certeza de que depois de ontem nossa cidade nunca mais será a mesma. Jonas que se cuide, será um Governo bem agitado no que depender de nós! Esse foi apenas o começo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

 As manifestações contra o Aumento da Passagem: e agora José? Para onde?

"Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?"


Carlos Drummond de Andrade 
 

Há alguns dias venho pensando em escrever sobre as manifestações que mudaram nosso cenário político nessa última semana, contudo não me sentia com propriedade para fazê-lo. Mas hoje vivi algumas coisas, vi alguns questionamentos e as recentes notícias e resolvi trazer apenas algumas reflexões...
O que mais tem me intrigado é essa onda de "o Brasil acordou" e similares: em primeiro lugar, tenho sérios problemas com todas as frases genéricas envolvendo "Brasil" e "brasileiro", normalmente são de um senso comum sem comparação e ignora as origens e desenvolvimento sócio-histórico-cultural do nosso país.
E esse tipo de frase ligado a um apoio às manifestações não fica ileso de crítica, até porque é tão ou mais danoso que os outros jargões do gênero. E podemos começar a desconstruir isso a partir do jargão oposto, da máxima do "brasileiro ignorante", porque são as mesmas pessoas que pronunciam ambos.



O primeiro ponto é que as 65.000 pessoas anunciadas no ato de hoje na capital paulista não brotaram do nada, as manifestações sempre estiveram lá, os movimentos sociais nunca deixaram de atuar, mas existe aí um abismo de acesso aos meios de comunicação ligado a um desinteresse sim, pois, para além de um processo maior que não sei se sou capaz de explicar com propriedade, a esquerda de nosso país passou por um processo histórico chamada guinada do PT à direita.
O Brasil já surgiu de um falta de experiência em mudanças com enfrentamentos, como o tradicional exemplo do nosso processo de Independência... tenho a impressão de que após a queda da União Soviética todos que acreditavam em uma outra sociedade se sentiram sem direção, desesperançados e, no Brasil, esse processo ideológico teve seu cume na entrada do PT no Governo, quando todos acreditaram que aquilo que construíram por 20 anos finalmente mudaria o país, e a decepção não podia ser maior. Os movimentos sociais ficaram desorientados, muitos foram cooptados, levaram anos para aceitar que a mão opressora era a mesma por quem haviam lutado e há muita gente que ainda não conseguiu aceitar, mas o fato é que em meio a esse processo todo, muitos sobrevivendo apenas, eles estavam lá, indo às ruas, tentando achar um caminho.
Mas, enquanto isso, todos nós sofremos esse mesmo processo ideológico da descrença, acreditamos que não é possível mudar, que aquele que luta por uma outra sociedade, critica os problemas mais fundamentais do nosso mundo, vai à rua, faz greve, protesta é algo parecido com um Don Quixote lutando contra os moinhos. Assistimos pacificamente a criminalização crescente e nos indignamos com os "vândalos" que "invadem" e vão fazer "baderna".
Agora, por que tudo isso mudou e "o Brasil acordou"? Retomando o histórico do Movimento Passe Livre, as manifestações tem um histórico de maior enfrentamento com a polícia, pois mexer com o transporte público e com as empresas que monopolizam o transporte não é qualquer coisa. Mas de repente vemos uma repressão absurda que por mais que a mídia se esforce fere o senso de democracia de qualquer um que não seja um fascista enrustido; a indignação só aumenta, as fotos aparecem, jornalistas foram atingidos e tudo isso sem nenhuma explicação a não ser que nosso país está sediando megaeventos e é preciso reprimir a movimentação com mãos de ferro.
Então toda essa movimentação é puro senso democrático? É claro que não. Há muitos anos a saúde e a educação são tratadas feito lixo, o transporte atingindo preços exorbitantes, as pessoas chegaram ao ponto de escolher entre se alimentar e chegar ao trabalho; indignação há aos montes e foi isso que fez o primeiro ato e agora temos tudo isso potencializado.
Aqui chegamos a outro ponto que muito me motivou a escrever: a incerteza do que virá. Não sei sinceramente dizer o que vai acontecer, pelo mesmo motivo que o Governo mandou a polícia ir para cima dos manifestantes, eu acredito que ele permanecerá firme, pois além da tradição truculenta do  PSDB nada é mais perigoso que um movimento vitorioso.


Mas aqui eu vou novamente para a história, pois tudo na vida são processos históricos. Sei que é difícil enxergar para além da conquista concreta ou não, mas para além disso há a experiência política dessas milhares de pessoas que participaram de atos gigantescos (e que ainda participarão, dia 20 tem mais no interior!), que viram de perto a repressão e puderam sentir a mão injusta da polícia a serviço dos empresários do nosso país. E isso é indignação que fica, uma imensa maioria de jovens vai levar isso com eles, participarão de suas organizações estudantis, virarão trabalhadores, lutarão para que seus sindicatos lutem por eles de fato e não entreguem as greves para o patrão.
As manifestações de hoje deixam a esperança, pois nós vimos que é possível unir muitos indignados e parar as ruas, que é possível conquistar o respeito de quem não está no movimento, ganhar essas pessoas para a legitimidade da causa, pois hoje o meu dia foi permeado de perguntas e comentários sobre o ato, desejo de participar. E isso é um processo político e ideológico irreversível e que pode ser o início de muita coisa, para os que acham tudo isso fruto de uma mente sonhadora, olhem as notícias: a manifestação de são Paulo foi a única que permaneceu pacífica quase em sua totalidade, enquanto em BH soltavam bombas de helicópteros e garanto que os manifestantes não foram poupados porque os lá de cima ficaram bonzinhos de repente. Em São Paulo, o movimento já impôs sua primeira derrota, amanhã vai ser maior!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ballet Nacional da Rússia em Campinas

 



Poucos campineiros ficaram sabendo, mas ontem o nosso teatro Castro Mendes recebeu o Ballet Nacional da Rússia em duas apresentações: O Lago dos Cisnes e Giselle. Ao que tudo indica, foi uma vinda bem aos atropelos, a apresentação foi confirmada segunda-feira, 8 dias antes do espetáculo.
Por sorte, tenho vários perfis relacionados ao Ballet no meu facebook e vi a notícia, quase não acreditando, é claro, pois Campinas há muito que é esquecida por todos nas iniciativas culturais, mas difícil de acreditar mesmo foi o preço de R$300,00 o ingresso!
Graças a uma carteirinha de estudante e um pai generoso, tive esse sonho realizado: ontem fomos ao Castro Mendes assistir o Lago dos Cisnes.
Quem é do meio pode entender esses sentimentalismo de bailarina: eu apresentava quando criança naquele teatro, depois de anos fechado para reforma, voltei a pisar naquele palco ano passado e desde então não pude ir para viver o outro lado e sentar em uma daquelas poltronas. Fazê-lo para ver o mais clássico dos Ballets de repertório e de uma companhia russa tem simbologias para mais de metro, de matar qualquer bailarina do coração!
E foi quase, hein! Minutos antes, esperando começar, sentia meu coração como se fosse eu esperando naquela coxia para entrar no palco e quando começou a tão conhecida melodia de Tchaikovsky e aquela cortina que não abria nunca achei que meu coração sairia pela boca! E aqueles primeiros minutos foram de absoluto encantamento: era um sonho que se realizava.
Mas todo esse sentimentalismo para quê? Pergunta quem já está sem paciência. Não sem propósito, eu garanto. Tudo para exemplificar o que significa para pessoas comuns como eu algo assim: e eu sou apenas um ser humano que depois de "velha" resolveu se apaixonar de vez pelo ballet e vê todas essas apresentações com uma admiração e um amor quase obsessivo. É algo bem comum.
A questão toda é que desde que vi o preço do ingresso e li a reportagem que saiu falando sobre "a popularização do teatro russo", não consigo me aquietar.
O Ballet sempre foi e continua sendo um meio muito elitista, o gosto pela dança clássica não é nem de longe popular, é caro fazer ballet e é caro assistir ballet e assim se fecha um círculo bem pequeno. Então lemos a reportagem e nos alegramos, é preciso popularizar o Ballet! Mas logo em seguida vemos os preços e rimos, porque não há mais nada a se fazer.
Quem estava ontem no teatro? Que acesso a população teve a um espetáculo desses? Que chance aqueles que travam uma batalha diária para serem grandes bailarinos sem poder pagar o que a maioria pode teve de assistir o Ballet? Imaginemos só por um instante o clássico do menino pobre que não bastasse lutar contra a falta de dinheiro, a arrogância dos colegas, tem também de lutar contra o preconceito (que absurdamente ainda existe! Queria ver um desses senhor testosterona sustentar um developpé para vir me falar que ballet é coisa de "mulherzinha")... pois bem, essa figura existe e aos montes por aí e nem sei se conseguimos imaginar o tamanho do sonho que a ida a um Ballet desses significa nesse caso.
Eu acredito na valorização da cultura em todas as suas formas: tanto na popularização da que já foi consagrada quanto na valorização da que é menosprezada e isso não será possível enquanto nos contentarmos com a ausência de uma política cultural de verdade: temos um teatro (lindo, por sinal!), tivemos uma apresentação gratuita de Ballet ano passado que lotou, eu não consegui entrar! As pessoas querem ver o teatro, a dança, a música, mas de nada adianta se não tivermos iniciativas da Prefeitura que traga tudo isso e de forma acessível e sabemos que é possível... vivemos em uma cidade cuja prefeitura auxilia os empresários do transporte descaradamente, aumentando a passagem a preços abusivos, não poderia ter subsidiado essa apresentação e tornado mais acessível à população? Não é essa a Campinas que queremos?
Mas, de toda a forma, acho que minimamente podemos nos alegrar por termos um teatro ao menos para receber uma Companhia dessas e nos alegrar ainda mais, pois foi declarado que Campinas agora faz parte da turnê mundial do Ballet Nacional da Rússia e ano que vem teremos A Bela Adormecida! Podemos começar a pôr as moedinhas no cofrinho e esperar que essa apresentação tenha sido não só um suspiro, mas um recomeço para a cultura em Campinas!

 ELENA

 

 

Chegou a Campinas (finalmente!) o documentário “Elena”, que vem sendo tão elogiado desde seu lançamento. Eu, que não via a hora de poder vê-lo, fui à estréia e, como sempre ocorre quando um filme me proporciona mais que algum tempo de divertimento, voltei precisando escrever sobre ele e resolvi tomar vergonha na cara e fazê-lo em um meio apropriado. Criei esse blog para esses momentos de necessidade literária.
Minha primeira reflexão nos primeiros minutos de filme foram acerca da câmera: imagens andando com certa velocidade, sem focar por algum tempo e depois cenas simplesmente da cidade e me espantou como nossos olhos acostumados ao dinamismo norte-americano estranham. Não assisto os famosos filmes cult como gostaria e admito: meus olhos estranharam essa lentidão.
Os olhos acostumados, comecei a pensar sobre a narração constante do filme. Primeiro, fiquei encantada ao refletir sobre aquele “gênero” que não sei que nome dar, pois a construção da nossa relação com o filme se dá por duas linguagens: a imagem e a fala. Nós vamos construindo Elena a partir dessas impressões e talvez o que tenha me encantado é que são de um lirismo absurdo. Importa realmente os acontecimentos? Pouco, muito pouco, o que estabelece nossa relação com o filme é a poesia da busca, da relação perdida, da lembrança. Acompanhamos tudo isso pela reconstituição da memória sentimental da narradora e sem perceber mergulhamos no filme como se fossemos ela mesma.
O mesmo acontece com a imagem, pois a recuperação das memórias nos faz construir a lembrança de Elena em paralelo com a narradora, nossos olhos e emoções parecem se fundir.
Pensei nisso durante o filme todo, porque não entendia minha impressão de espectadora, porque Elena vai chegando assim, sem avisar e do encantamento daquela personalidade ímpar, do lindo da espontaneidade de seu talento e vocação, nos vemos tomados pela angústia e dor de sua irmã até o fim. Não há volta. Não há refúgio.
Saí sem conseguir pensar na história em si, o que achava dela, se era triste ou não, porque não importava. Porque, no fundo, a história é conhecer Elena, mergulhar nela para depois esquecê-la.
Semana passada fui assistir “bonitinha, mas ordinária”, a nova adaptação do texto de Nelson Rodrigues e hoje me dei conta de que, naquela ocasião, minha cabeça saiu pensando, refletindo sobre tudo que é exposto no filme. Hoje, meu coração saiu funcionando, pois estamos falando de poesia, do sensível, estamos falando de entender uma experiência humana, entender não, sentir e aceitar que um furacão chamado Elena veio e nos deixou assim, sem fôlego e é preciso aceitar simplesmente e deixá-la ir.
E no fim de tantas reflexões inacabadas, há horas só consigo pensar na minha querida Clarice Lispector: “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
Vivam Elena, é meu conselho e vivam rápido que filmes como esse não duram em cartaz contra o cine pipoca hollywodiano.